Capítulo 1

   Luz. Ah, tinha que ser agora? Quanto tempo eu dormi depois da revira volta de madrugada? Duas, três horas? Estou com sono ainda.
- Pai, está muito cedo...
- São cinco e meia. Hora exata para a senhorita levantar e tempo suficiente para se arrumar e ir pra escola.
Balbuciei algo e coloquei o travesseiro em cima da minha cabeça. Meu pai saiu do quarto e eu olhei para o relógio no criado mudo. 5h31. Droga. 
   Levantei, me espreguicei e estiquei os músculos do pescoço, das costas, das pernas... Enfim, todos. Levantei e calcei as pantufinhas vermelhas. Esfregando os olhos, sai do quarto caminhando até o banheiro, lá embaixo. Tem muitos degraus... Argh... Abri a porta do banheiro, entrei e fechei de novo. Abri a torneira. Ahh, água gelada... Lavei o rosto pra acordar. Tirei o pijama e me enfiei na ducha deliciosa. Não estou afim de um banho de banheira, só uma ducha está bom hoje... Depois de 15 minutos de baixo da água, fecho o chuveiro e saio do box. Pego minha toalha e, depois de me secar, a envolvo no corpo. Olho pro espelho. Legal, cabelo molhado. Rabo de cavalo hoje. Abaixo a cabeça e enxáguo a boca. Saio do banheiro. A essa hora meu pai já foi trabalhar, então sem preocupações em andar de toalha pela casa... É até mais confortável. Vou até a cozinha, rezando pra que meu pai tenha feito o café... Certo, está feito. Deixo escapar um sorrisinho de satisfação. Xícara, xícara... Achei, encho meia xícara de café e um pouquinho de leite. Meu vício em café é assustadoramente assustador. Tenho que dar um jeito nessas palavras que eu invento concordância... Encosto na pia e dou alguns golinhos no café ainda quente. Dou uma beliscada na bolacha de água e sal ao lado da garrafa de café e me dirijo para a sala. Não estou no pique de ir pra escola hoje... Não quero ver ele. Talvez eu mude de escola... Não. Não vou mudar de uma ótima escola só por causa de um menino, seria criancice. Certo?
   Sento no sofá e ligo a TV. Canal de notícias. Tragédias fazem fila pra passar. Credo. Desligo a TV. Olhando pro meu café, dirijo meus pensamentos para a aula de artes. É, eu amo colocar minhas ideias no papel, mas a parte que a professora manda a gente desenhar alguma coisa que ELA queira, prefiro esquecer. É muito chato não poder expressar suas ideias... Batidas na porta. Droga, são 5h55, quem é que bate na porta de alguém essa hora da manhã? Me levanto e vou até a porta, amaldiçoando meu pai por não colocar ao menos um olho mágico. Giro a chave e abro a porta. Ethan? Merda! Esqueci da toalha! Fecho a porta com tudo e saio correndo pro meu quarto. A xícara! Droga, droga, droga. Coloco num dos degraus da escada e continuo correndo. Me apresso em colocar uma camisa social branca e uma calça jeans. Droga, será que se usa jeans com camisa social? Bom, agora será usado. Dou uma rápida no espelho e ouço passos vindos da escada. Merda, ele não podia esperar? Viro a cabeça pra porta e ele entra na minha linha de visão. Cristo, o que eu falo? Droga, eu travei.
- Hm... Oi... 
A voz dele continuava macia... e gostosa de ouvir... meus pensamentos voaram para a noite na praia... Não. Isso será bloqueado. Assim como todo o resto.
- Oi.
Eu disse, tentando soar calma e nada interessada. Só não sei se deu certo...
- Er, você deixou a porta destrancada e e eu...
O sol da manhã refletia nos olhos dele... Incríveis olhos verde claros. 
- Sim, eu estava de toalha... nem pensei em trancar a porta.
Ele usava uma camisa azul clara com mangas compridas que estavam dobradas até seus cotovelos e os últimos três botões estavam abertos, dando acesso a seu peito. Ele estava com um jeans preto e all star da mesma cor.
- Desculpa, seu pai me disse que você precisava de uma carona pra escola e eu...
- Não.
Droga, interrompi aquela voz magnífica.
- Quer dizer, não preciso. Não se preocupe, eu estou na minha hora e tenho tempo.
Dei uma olhada de relance para o meu relógio no criado mudo. 6h10. Ainda tinha trinta minutos pra terminar de me arrumar e caminhar até a escola.Tranquilo.
- Certo. Então... Se você não precisa, eu vou indo. Não quero atrapalhar. Deixa eu só...
Ele deu três passos na minha direção e eu me afastei, procurando distância.
- Calma...
Ele me deu um sorriso de canto de boca. Eu amo aquele sorriso. Quer dizer, amava. Eu parei e ele se aproximou, colocando a mão direita no meu rosto e mexendo o polegar no meu queixo.
- Café. 
Mas ele não tirou a mão do meu rosto. Se ele ficasse muito tempo com a mão ali, eu... Ele se aproximou mais e agora só havia um pequeno vão entre a gente. Aqueles incríveis olhos verdes olharam para minha boca, que estava entreaberta, tentando puxar pelo menos um pouco de ar... Me afastei. Não posso deixar isso acontecer de novo. 
- Hm... é, minha hora está correndo e eu vou me atrasar, então...
- Ah, sim, claro, desculpe. 
Ele tirou a mão do meu rosto e se afastou.
- Então eu vou indo. Hm... Te vejo na escola.
- Certo. Nos vemos lá.
Ele se virou e saiu. E então eu senti uma coisa... Não sei bem o que, mas era ruim. Um sentimento de... vazio.

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