Capítulo 2 - Estranho

   Tenho que terminar de me arrumar. Pensei, enfim saindo de meu transe sem sentido depois que ele saiu. Me virei para o espelho e dei uma boa olhada em mim. Cabelos molhados, soltos com leves ondulações nas pontas. Meu cabelo é avermelhado. Em cima um vermelho mais leve e descendo, a cor escurece. Eu tenho uma pequena fissuração por vermelho... Desviando meu olhar para minha camisa branca, vejo que não abotoei os quatro últimos botões, na pressa. Merda, eu sempre sou desajeitada assim? Não quero ir com essa camisa, mas tenho que me apressar um pouco, então deixo e fecho dois botões, deixando os outros dois, formando com um leve decote. Certo. Pego uma escova de cabelo em cima da penteadeira e escovo meu cabelo até um pouco antes das pontas, não querendo acabar com o ondulado. Depois, com os dedos, vou dando forma aos ondulados, formando pequenos cachos. Falta a maquiagem.
   Não querendo nada exagerado, arrumo as sobrancelhas e passo um rímel preto nos cílios. Cadê meu lápis preto?... Ah, sim, na primeira gaveta. Quando eu voltar da escola, vou ter que arrumar meu quarto e organizar melhor as coisas. Contorno as linhas d'água dos meus olhos com o lápis e pego a sombra vermelha, não fazendo nada exagerado, passo um só um pouco. Logo, examino o resultado no espelho. Perfeito. Só preciso do batom chocolate e tudo certo. Droga, nunca sei onde está esse batom. Deve estar na moch... (barulho de vidro quebrando na cozinha). O que é isso? Não tem ninguém em casa... Só se meu pai voltou. Desço as escadas correndo, a caminho da cozinha e lembro que não calcei nada. Tarde demais, senti a sola do meu pé direito rasgando e logo dou passos para trás, mancando. A dor estava quase insuportável agora e eu acho que foi muito profundo. Vou mancando até o sofá, na sala, e me sento. Agarro meu joelho com as mãos e me jogo contra as costas do sofá, fechando os olhos com força. Não quero chorar, não quero borrar a maquiagem e estou com medo de olhar o estrago. Mas tenho que faze-lo, então, abrindo os olhos, coloco a perna direita dobrada sobre a esquerda e olho para meu pé. Meu Deus, não aguento ver sangue... Um dos pedaços do vidro quebrado estava afundado no meio da sola do meu pé e o sangue escorria cada vez mais. Senti uma lágrima escorrer pela minha bochecha e ouço a campainha. 
- Está aberto! 
Eu grito, quase soluçando. Ouço passos fortes, vindo em direção a sala. São passos masculinos. Mas...
- Cristo, o que aconteceu?! Tem uma trilha de sangue atá aqui!
A voz de Ethan sai num tom de surpresa. Claro, quem não ficaria... Droga, não percebi os pingos de sangue até aqui...
- Você se machucou, droga, o que aconteceu?
Ele se ajoelhou na minha frente e pegou meu tornozelo. Eu coloquei as duas mãos na minha testa e encostei nas costas do sofá.
- Você tem algum kit de primeiros socorros aqui?
- No, no meu... No banheiro, dentro do armário.
Eu digo, agora soluçando. A dor insuportável...
Se levantando, vai até o banheiro e então não consigo mais vê-lo. Cristo, não consigo mais aguentar isso... Eu nem sequer vi o que quebrou. E também não sei como, já que não tinha ninguém além de mim em casa.
- Acho que foi um prato que quebrou...
- Ah... Mas não tinha ninguém em casa e eu estava no quarto.
- Bom... Vai ver o prato estava na ponta de algum lugar...
- Não. Todos os pratos estavam no escorredor... Aiii
Ele já tinha aberto o kit e estava tirando o pedaço de vidro com a ajuda de um pano na mão.
- Desculpe
- Tu do bem... Droga, cuidado!
Ethan tirou totalmente o vidro do meu pé, puxando um pouco mais depressa.
Ele sorriu de leve, mas sua aparência estava nervosa.
- Missão número um, concluída. Missão número dois: limpar o sangue.
Tinha me esquecido das piadas dele, fazendo-me sorrir mesmo em momentos trágicos. Soltei um risinho, então ele olhou para os meus olhos. Aqueles olhos verdes fixados nos meus, castanhos claros. Tão lindo...
- Hm... onde eu consigo um pano limpo? 
- Na segunda gaveta em baixo do armário de canto, na cozinha.
- Certo, volto em um segundo.
Ele se levantou e se dirigiu à cozinha. Depois de uns segundos ele voltou.
- Ok, agora eu vou executar a missão dois.
- Certo... - E dou um sorriso.
Ele pegou meu pé e limpou com cuidado a área coberta de sangue, em volta do ferimento.
- Foi muito profundo?
- Foi, mas não é nada que não sare. 
- Hm...
- Missão dois executada. Próxima missão: Pomada. Por favor, não grite
- Não vou gritar... Droga!
- Eu disse pra não gritar...
- Argh, está doendo muito! E você não aviso quando passaria a pomada.
- Não preciso avisar...
E então ele terminou de passar a pomada. E foi executando as "missões", até chegar na parte de enfaixar. 
- Droga, eu não queria enfaixar. Como eu vou pra escola?
- Não vai.
- Como assim não vou? É claro que eu vou! É o primeiro dia, e eu nunca perco os primeiros dias!
- Desculpe senhorita, mas parece que hoje você vai perder.
- Mas que...
- Olha a boca...
- Argh! Me deixa!
Ele se levantou, fechou o kit e colocou em cima da mesinha da sala. Então se sentou ao meu lado no sofá. Me pergunto o porquê dele ter voltado. Mas ele estava pensando em algo, olhando para baixo, com as mão juntas em cima das pernas, e eu não queria interromper...
- Você ainda...
Ele deu uma pausa, que me deixou curiosa.
- Eu ainda...?
- Nada, esquece.
Suspeito...
- Certo. Hm... Por que você voltou aqui?
- Ah, eu... Eu só queria... Hm, ver se eu deixei minhas chaves aqui. Eu não estou achando elas.
- Oh, não, não vi suas chaves. Acho que você deve ter deixado em outro lugar.
- É, deve ter sido isso.
- É...
- Bom, eu vou ter que ir pra escola... Mas eu volto aqui logo que eu sair de lá.
- Voltar? Pra que?
- Vou querer checar se você estará bem até lá.
- Ah, certo.
Ele se levantou e olhou para mim. Se aproximou, olhando nos meus olhos, mas logo desviou o olhar para minha boca novamente. Fechou os olhos, abriu e deu um beijo na minha bochecha.
- Até às 13h.
- Até.
Depois de uns minutos, depois que ele saiu, o telefone tocou. Não queria falar com ninguém, muito menos algum dos clientes da loja do meu pai. Deixei cair na caixa postal.
- Filha, o sr. Smith quer que eu veja umas coisas na loja dele, em Luisiana... Vou passar uns dias lá. Umas três semanas, talvez quatro. Não queria passar tanto tempo fora de novo... Mas você sabe, tenho que trabalhar. Bom, por favor, não fique brava comigo e se qualquer coisa acontecer, me ligue. Vou pegar minhas coisas de madrugada, então provavelmente você vai estar dormindo. Te amo filha, fique bem. E se comporte!
   Luisiana? É um pouco longe... Prepare-se para ficar sozinha em casa, Kat.

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